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Sustentação oral não pode ser mera formalidade

 


Por Esdras Dantas de Souza  ---

Quando o advogado não é verdadeiramente ouvido, o processo perde sua essência

 

Abertura: um problema silencioso nos tribunais

Há uma inquietação crescente entre advogados que atuam nos tribunais:
a sensação de que, em muitos casos, a sustentação oral deixou de cumprir sua verdadeira função.

O advogado se prepara. Estuda. Estrutura argumentos.
Mas, ao subir à tribuna, percebe — ainda que de forma sutil — que o julgamento já parece estar decidido.

E quando a sustentação oral se transforma em um simples rito protocolar,
não é apenas a advocacia que perde espaço.
É a própria Justiça que se distancia da sua finalidade.

 

Julgamentos que já chegam prontos

Não é raro ouvir relatos de profissionais experientes:

  • votos previamente elaborados
  • pouca interação com os argumentos apresentados
  • ausência de escuta efetiva

A sustentação oral, que deveria influenciar e contribuir para a formação do convencimento,
acaba sendo tratada como uma etapa obrigatória — e não como um momento decisivo.

Esse cenário gera uma percepção preocupante:
a de que o esforço do advogado não encontra ressonância no julgamento.

 

Sustentação oral não é protocolo — é instrumento de convencimento

É preciso reafirmar com firmeza:

·         A sustentação oral não é um ato simbólico.

·         É um dos momentos mais importantes do processo.

Ali, o advogado:

  • contextualiza o caso
  • evidencia pontos sensíveis
  • traz elementos que muitas vezes não estão claros nos autos
  • humaniza a causa

A palavra do advogado, naquele instante, pode esclarecer, ajustar percepções e, sim, influenciar decisões.

Transformar esse momento em mera formalidade é esvaziar uma das garantias mais relevantes do sistema processual.

 

O impacto direto na advocacia e na sociedade

Quando a sustentação oral perde sua efetividade, os impactos são profundos:

  • Advogados se sentem desestimulados
  • A confiança no sistema de julgamento é abalada
  • O cidadão perde a oportunidade de ter sua causa plenamente defendida

Não se trata de vaidade profissional.
Trata-se de assegurar que todos os argumentos sejam, de fato, considerados.

Porque decisões justas não nascem apenas da leitura fria dos autos —
mas da escuta atenta e da reflexão completa.

 

O que precisa mudar nos tribunais

A mudança não exige ruptura. Exige compromisso.

É fundamental que os tribunais:

  • assegurem tempo adequado para sustentação
  • demonstrem atenção real aos argumentos apresentados
  • valorizem a tribuna como espaço legítimo de construção da decisão
  • reafirmem o papel do advogado como agente essencial da Justiça

Não se pede privilégio.
Exige-se respeito ao devido processo legal.

 

Valorizar a sustentação oral é valorizar a Justiça

O advogado não sobe à tribuna por formalidade.
Ele sobe para defender direitos.

E quando essa defesa é verdadeiramente ouvida:

o julgamento se torna mais qualificado
o contraditório se fortalece
a decisão se aproxima da Justiça

Ignorar a sustentação oral é, na prática, enfraquecer o próprio sistema.

 

Conclusão: ouvir o advogado é respeitar o cidadão

Não existe Justiça plena sem escuta verdadeira.

A sustentação oral precisa deixar de ser vista como um rito —
e voltar a ser reconhecida como aquilo que sempre deveria ter sido:
um instrumento real de convencimento.

Porque, no fim, quando o advogado é ouvido com atenção,
quem realmente está sendo respeitado é o cidadão.

 

Esdras Dantas de Souza
Advogado, Professor e Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)


Série: Artigos publicados entre os membros da ABA, para o seu aperfeiçoamento.

 

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